Há um Darth Vader em cada um de nós?


Quanto existe de mal dentro de cada um de nós?

O Jovem Anakin Skywalker da série cinematográfica Star Wars era meigo e amoroso, porém com o passar do tempo e sob as circunstâncias que a vida lhe trouxe (perda da mãe e do amor), e influencia daquele que viria ser o líder máximo da galáxia muito, muito distante, transformou-se no vilão impiedoso Darth Vader.

O que leva, então, um ser humano comum a praticar atos violentos, destrutivos, cruéis, maus?

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Otto Adolf Eichmann – “Morte Branca”

As religiões, inclinadas a dar respostas fáceis e definitivas, porém nem sempre (ou quase nunca) lógicas e racionais, tendem a dizer que tais comportamentos se dão por ausência de uma moralidade regida pelo seu deus (ou deuses). Mas a verdade é que não há paralelo entre religiosidade e bondade, assim como não há nenhum paralelo ao oposto. O que eu quero dizer é que há crentes maus e crentes bons, assim como descrentes maus e descrentes bons.

O que antes era um debate restrito a acadêmicos, especialmente filósofos e teólogos, vem ganhando espaço cada vez maior em vários campos da ciência, especialmente psiquiatria, psicologia e até da biologia. Afinal porque existem pessoas boas e pessoas más?… ou ainda, porque pessoas boas fazem coisas más e pessoas más fazem coisas boas?… ou ainda mais, existem pessoas essencialmente boas e pessoas essencialmente más?

“Psiquiatras, psicólogos e estudiosos da biologia vêm desenvolvendo experimentos e teorias para desvendar a origem do comportamento destrutivo. As explicações que estão surgindo são variadas, mas apontam numa direção: a capacidade de fazer o mal, assim como a de fazer o bem, parece existir em todas as pessoas e sociedades”. (NOGUEIRA, 2005 – p. 31).

Quando as portas de Auschwitz foram abertas pelos Russos em 1945, o mundo ficou estarrecido com o que viu. A pergunta mais frequente era: “Como o ser humano é capaz de tanta maldade?”  Como justificativa para as atrocidades, os soldados,  médicos e burocratas nazistas , como Adolf Eichmann (foto ao lado) que ajudou na elaboração dos planos para extermínio de milhares de judeus, argumentavam que estavam apenas cumprindo ordens e, se não o fizessem, poderiam ser mortos. Desde então a ciência ganhou um novo impulso para tentar explicar as origens de tais comportamentos.

“Nos anos 1960 o psicólogo americano Stanley Milgram se perguntou se cidadãos comuns, instigados por alguma forma de autoridade, também teriam a capacidade de infligir dor e sofrimento a pessoas que nunca lhes fizeram mal. Para avaliar a possibilidade, criou em 1961 um experimento onde uma cobaia recebia ordens para dar choques elétricos cada vez maiores numa falsa vítima, sendo que a intensidade do choque mais forte seria teoricamente capaz de matar (…). Milgram pediu a 40 colegas psiquiatras que estimassem o porcentual de indivíduos que chegaria a aplicar choques potencialmente fatais. Os psiquiatras apostaram que menos de 1% seria capaz de agir de forma tão sádica. Mas os resultados iniciais mostraram que 65% das cobaias obedeciam até o fim”. (NOGUEIRA, 2005 – p. 32).

O Vídeo abaixo reproduz o Experimento de Obediência de Stanley Milgram (apenas 4min.)

Outra experiência famosa foi realizada, também, nos EUA na década de 1970 e ficou conhecida como o Experimento da Prisão de Stanford. 24 pessoas foram escolhidas

aleatoriamente e colocadas num ambiente controlado com características de uma  prisão, na verdade era o subsolo do laboratório do psicólogo social Philip Zimbardo, criador do experimento. Alguns dos jovens que serviam como cobaias deveriam atuar como guardas e outros como prisioneiros.

O experimento, que deveria durar duas semanas, teve que ser interrompido no sexto dia frente a opressão e violência reais que acabaram por acontecer. O Experimento de Zimbardo foi reproduzido no filme “A Experiência” do alemão Oliver Hirschbiegel (Das Experiment – 2001) e no remake “Detenção” (The Experiment – 2010) do diretor norte americano Paul Scheuring.

Experimentos como estes mostram que, excetuando uma minoria de psicopatas e sociopatas, que tendem a ser cruéis, as vezes sem nenhuma razão aparente,  pessoas comuns podem causar (e causam) grandes danos, talvez, influenciadas por outras pessoas que detenham ou demonstrem autoridade e, talvez,  por estarem sujeitas a certas circunstâncias específicas.

“Dois fatores reforçam a força das circunstâncias. O primeiro é a visão de que a vítima pertence a um grupo diferente. ‘Quase todas as formas de preconceito e hostilidade vêm daí”, diz Miller¹. O segundo é a hierarquia. “As pessoas na posição mais baixa percebem violações éticas no seu ambiente de trabalho, mas temem ser punidas se denunciarem o que vêem. A tendência é imitar seus pares e obedecer às autoridades, e com o tempo seu comportamento pode se tornar danoso ou corrupto'”. (NOGUEIRA, 2005 – p. 35).

As teorias de Milgram e Zimbardo mostram que por obediência e/ou circunstâncias até o mais pacato ser humano pode se tornar um sádico, porém em pesquisa realizada por Alexander Haslam, psicólogo da Universidade de Queensland, na Austrália e Stephen Reicher, professor de psicologia social da University of St Andrews, no Reino Unido, publicada na revista PLOS Biology, afirma que as pessoas que agem com crueldade, mesmo a mando de uma autoridade ou ao sabor das circunstâncias, o fazem não apenas motivadas pela obediência cega, mas,  também pelo entusiasmo, por prazer, ou por pensarem que fazem a coisa certa.

“Pessoas capazes de cometer atos cruéis não são penas receptoras passivas de ordens; elas também se identificam com autoridades abusivas, e acreditam estar fazendo a coisa certa mesmo quando são violentas. (…) Haslam afirma que esses seguidores não são passivos, mas criativos, e suas ações brotam do fato de eles se identificarem com as autoridades e acreditarem em suas premissas”. (Rosa, 2012).

Para chegar a essa conclusão Haslam e  Reicher, em 2002 com apoio da TV BBC de Londres, conduziram um experimento semelhante a de Zimbardo, porém desta vez

Cartaz do Filme "A Experiência"

Cartaz do Filme “A Experiência”

garantiram que não haveria influencia, em nenhum momento, dos pesquisadores. Haslam e Reicher não deram nenhuma instrução aos “guardas” de como deveriam agir, deixaram que os instintos os dominassem. Diferente dos experimento dos anos de 1970, desta vez os voluntários demoraram mais tempo para assumir os papéis que lhes fora dado cabendo aos prisioneiros a primeiro se identificar com o grupo ao qual “pertenciam”, criando resistência às autoridades e um sistema mais justo e igualitário entre eles. “Segundo Haslam, isso mostra que as pessoas não se submetem automaticamente aos papéis que lhes são incumbidos, e que elas podem resistir a esses papéis quando não gostam das consequências.”   e que “aqueles que obedecem à autoridade não o fazem de modo cego, mas de modo ativo. O fazem por escolha e não necessidade e, por isso deveriam ser vistos como seguidores engajados, e não conformistas cegos”  (Rosa, 2012).

Ou seja, assim como o bem, o mal mora dentro de cada um de nós. As circunstâncias e os líderes apenas nos instiga a liberá-lo, e se apreciado, pode nos tornar seres cruéis por escolha, por opção e não por falta dela.

 Nota

¹ Arthur Miller, psicólogo da Universidade Miami.

 Bibliografia

NOGUEIRA, Pablo.  Revista Galileu, Ed. 166 – Maio de 2005
ROSA, Guilherme  – Revista Veja online – 24 de novembro de 2012.  Disponível em http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/pesquisa-haslam-mal-nasce-concordancia-e-nao-obediencia (acesso em 29/10/2013).

 


 

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