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O Mito nas sociedades antigas e atuais

Segundo Rocha, (2000, p. 16) “o mito é uma narrativa, um discurso, uma fala. É uma forma de as sociedades espelharem suas contradições, exprimirem seus paradoxos, dúvidas e inquietações.”

Mas o mito não se limita a uma narrativa qualquer, se assim fosse perderia seu encanto particular, ao contrário, o mito é uma narrativa especial carregada de tradição e lendas épicas. Para Torrano (1997), nos diálogos de Platão, mythos mythología designam as narrativas míticas da tradição épica, definidas como um amálgama de verdades e mentiras.

Os mitos estavam presentes em tempos imemoriais e continuam presentes nos dias de hoje, como legado de uma época já perdida, embora com a conotação negativa daqueles que o vêem como algo irreal e mentiroso.

Mas o Mito se restringe as sociedades antigas? Qual a importância do Mito e das mitologias nos tempos atuais e o que podemos aprender com eles? Como elas influenciam em nossas decisões cotidianas?

O Mito na Hélade²

Perseu com a cabeça da Medusa, no Filme “Fúria de Titãs” (1981)

Perseu com a cabeça da Medusa, no Filme “Fúria de Titãs” (1981)

A Religiosidade Grega não possuía verdades indiscutíveis, ou doutrinas inquestionáveis. Neste sistema de crenças tinha-se a convicção de que a filosofia e religião deveriam se integrar, o culto a razão não significava o repúdio a hierofania¹, mas a exigência do repensar das atitudes religiosas.

Os deuses mitológicos gregos representavam os aspectos fundamentais do mundo personificado na proteção e condução dos mares, dos ventos e das tempestades, da floresta, da luz, da música, da medicina ou do fogo, bem como os aspectos e anseios dos seres viventes: fúria, beleza, ira, sabedoria, inveja, boa colheita, boa caça, bom parto, etc. Por este motivo, entender os deuses, suas histórias e suas vontades, constituía o verdadeiro conhecimento do mundo. A Religiosidade, então, para o grego antigo constitui a verdade, conhecimento e a própria existência do mundo e tudo que nele habita.

Se cada deus nomeia uma região do ser, um aspecto do mundo ou um âmbito de atividades, os mortais sempre se encontram, em toda atividade e a qualquer momento, sob o domínio de um deus. (HESÍODO – 1997. P. 33 – td. Jaa Torrano). Assim qualquer sentimento mortal ou qualquer conhecimento por ele adquirido ou habilidade conquistada era mais que traços comportamentais ou méritos de alguém, mas uma forma divina do mundo, amparada por algum deus do vasto panteão existente. Da mesma forma, os homens mortais deviam permanecer alertas, realizar rituais e fundamentalmente, buscar, através de estudos filosóficos, entender os sinais dos deuses para que tivessem sucesso em seus empreendimentos cotidianos.

O Mito na Sociedade Atual

Vernant afirma que as lendas e os mitos helenísticos³, para serem compreendidos, devem ser comparados as tradições de outros povos. Portanto nada melhor que compará-la ao mito mais recente e ainda latente na sociedade ocidental atual, ou seja, o mito cristão. Se há semelhanças entre os dois, estas circunscrevem-se ao âmbito político, na formação da cultura e na observação das “pistas” deixadas pelos deuses (ou único deus no caso do cristianismo) para se obter sucesso nos empreendimentos cotidianos.

Se na antiguidade os mitos gregos e romanos, bem como vários outros mitos pagãos, reinavam, é porque naquela época, não eram entendidos como tal, ou melhor, não eram entendidos como se hoje é entendido um mito ou mitologia, era para seus contemporâneos, a máxima expressão da verdade. Da mesma forma as mitologias contemporâneas são hoje declaradas como verdades e não são entendidas como mitos justamente por serem atuais.

O mito, para quem o vive, é expressão da realidade, relata histórias sagradas e propõe modelos de conduta e dogmas além de propor a explicação ou interpretação desta mesma realidade.

“O Nascimento de Vênus” – Sandro Botticelli, 1483.

“O Nascimento de Vênus” – Sandro Botticelli, 1483.

Os mitos contemporâneos, em especial o mito cristão, não precisam de validação lógica e suas verdades estão geralmente baseadas no tripé, tradição, autoridade e revelação, ou seja, ou são passadas de pais para filhos sem contestação lógica, por meio datradição oral ou escrita, (e quanto mais velha for a tradição mais as pessoas levam a sério, mesmo que não haja evidências para sua validação), ou são impostas por uma certa autoridade incontestável, como um papa, um aiatolá ou outra pessoa com uma nomenclatura ou cargo religioso importante, ou ainda reveladas a pessoas “escolhidas” portadoras de dons sobrenaturais.

Professor de Oxford, etólogo e biólogo evolutivo, Richard Dawkins, nos dá uma pista de como este tripé atua em nossa sociedade. No capítulo final do seu livro “o Capelão do Diabo” ele conta a história de como Maria, mãe de Jesus foi elevada a condição de santa e como terminou a querela dos católicos sobre a assunção de seu corpo ao céu, tal qual os cristão acreditam que aconteceu com seu filho Jesus:

A Bíblia não diz nada sobre como ou quando ela nasceu; aliás, a pobre mulher mal é mencionada na Bíblia. A crença de que seu corpo foi levado ao céu não foi inventada até cerca de seis séculos após a época de Jesus.(…) Mas no transcorrer dos séculos, ela se tornou uma tradição e as pessoas começaram a levá-la a sério (…) foi por fim escrita como crença católica romana oficial muito recentemente, em 1950 (…) Mas a história não é mais verdadeira em 1950 do que quando foi inventada, seiscentos anos após a morte de Maria.(…)” (DAWKINS, 2005, p.431 – 432). Negrito meu.

Ou seja, por mais de seis séculos após a morte de Jesus os cristãos não se ocuparam da questão assunção corporal de Maria, porém, por algum motivo, algumas pessoas começaram a discutir a respeito. Como nada foi encontrado no livro mais sagrado do cristianismo, o tema ou posto em dúvida por alguns defendendo que apenas aquele que era o cristo4 teria sido levado aos céus de corpo e alma. Outros, porém enquanto outros defendiam que Maria teria sido glorificada e imaculada. Estes cristãos se apoiavam na interpretação bíblica descrita em Lucas 1:28 onde o anjo Gabriel a chama de “a cheia de graça” indicando que ela não estava sob o reino do pecado e então não poderia entrar no reino da morte. A segunda teoria, por estar apoiada nos evangelhos ganhou maior adeptos entre os católicos e logo se tornaria tradição entre estes.

Mas Dawkins Continua:

“Quando digo que só em 1950 os católicos romanos foram finalmente informados que tinham que acreditar que o corpo de Maria havido subido para o céu, quero dizer que em 1950o papa disse que isso era verdade, e então tinha que ser verdade!” (DAWKINS, 2005, p.431 – 432). Negrito meu.

Aqui o segundo item do tripé é evidenciado. Quando uma autoridade põe sua opinião sobre um tema conflituoso, os adeptos daquele mito tendem a crer, mesmo que não haja nenhuma prova ou lógica na questão.

Jesus de Nazaré

Jesus de Nazaré

“Se você tivesse perguntado ao papa em 1950, como ele sabia que o corpo de Maria tinha subido ao céu, eleprovavelmente teria dito que isso lhe fora revelado. Ele se fechou num quarto e rezou, pedindo orientação. Sozinho, ele pensou e pensou, e na sua intimidade teve mais e mais certeza de suas idéias”. (DAWKINS, 2005,  p. 433).

A revelação, como Dawkins definiu acima, é outra ponta do tripé qual está apoiado o mito cristão atual.

Porém o Mito atual, ao contrário do Mito Grego ou Romano, não nos estimula a pensar ou questionar. Desde a Idade Média a igreja, guardiã do mito cristão, se preocupou em “salvar almas” em detrimento de saúde corporal e, principalmente, mental. Os Monges eram os únicos letrados pois, ainda segundo a igreja, a educação deveria vir das sagradas escrituras e não de filósofos mundanos ou pagãos. Houve, então, a separação absoluta da ciência e estudos dirigidos baseados em evidências  e o estudo do divino baseado na bíblia, nas ‘revelações’, na ‘tradição’ e, maior de todos os erros, na ‘autoridade’ da igreja representada pelo “Herdeiro do trono de Pedro5“.

Nos dias de hoje, mesmo passados quase 6 séculos6 após o final do período medievo, mito cristão continua a influenciar corpos e governar mentes, interferir na política, no cotidiano, na moral, nos avanços ou nos retrocessos da ciência e da tecnologia.

O Mito Cristão, simplesmente por ser contemporâneo, é hoje tipo como verdade. Desmenti-lo, assim como no passado é considerado blasfêmia.

 


Notas

1 - Manifestação reveladora do sagrado.
2 – Grécia Antiga.
3 – Referente ao Helenismo,  período histórico entre a conquista do Oriente por Alexandre e a conquista da Grécia pelos romanos.
4 - De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e com o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, o nome próprio Cristo deriva do latim Christus, cujo étimo se encontra no grego khristós, que significa “ungido”. Ou seja, cristo é um adjetivo que deu origem ao nome próprio Khristós, por adaptação semântica do hebraico mashiakh, que significa “messias” ou “ungido”.
5 – Como os católicos se referem ao seu PAPA.
6 – O ano de 1453, quando o sultão otomano Mehmet II Tomou a Cidade de Constantinopla, sede do Império Romano no Oriente, marca o fim da Idade Média.


Referências Bibliográficas

ROCHA, Everaldo. Coleção Primeiros Passos: O que é Mito? Ed. Brasiliense, 2000.

SILVA, Semíramis Corsi. Magia e Poder no Império Romano – a Apologia de Apuleio – Franca, Editora Annablume, 2012.

VERNANT, Jean-Pierre. Entre Mito & Política, Tradução de Cristina Murachco – 2ed. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2002.

HESÍODO. Teogonia: A origem dos Deuses, estudo e tradução de Jaa Torrano – 7ed. São Paulo, Editora Iluminuras, 2007.

DAWKINS, Richard. O Capelão do Diabo, Tradução de Rejane Rubino – São Paulo, Editora Companhia das Letras, 2005.

 

Referências on-line

SELEPRIN, Maiquel José.  O Mito na Sociedade Atual. Disponível em Dia a Dia Educação (Portal de Educação do Governo do Paraná). Acesso em 23/08/2012.

POZADOUX, Claude. Contos e Lendas da Mitologia Grega. Disponível em Site Oficial da Cidade de Botucatu. Acesso em 23/08/2012.

LARA, Tiago Adão. Helenismo e Cristianismo nas Bases da Cultura Medieval. Disponível em Portal Educação e Filosofia do Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas da Universidade Federal de Uberlândia, MG. Acesso em 23/08/2012.

BRANDÃO, Jacyntho Lins. As musas ensinam a mentir. Revista Ágora. Estudos Clássicos em Debate, n.2, 2000 Disponível em: PRO-UA Plataforma de Revistas em open source da Universidade de Aveiro. Aveiro Portugal. Acesso em 25/08/2012.

 

 


 

 

 

 

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