Fúria de Titãs (1981)

Quem assistiu apenas o remake feito em 2010, certamente deve ter adorado os efeitos visuais, a ação e violência, mas com certeza perdeu uma das melhores histórias mitológicas que já fora filmada. Clash of  the Titans (Fúria de Titãs no Brasil) estreou em 1981 como um filme cheio de efeitos especiais que, na época, sem super computadores ou imagens em HD, Full HD ou 4k, eram revolucionários e inimagináveis.

O filme dirigido por Desmond Davis e estrelado por Harry Hamlin e a linda Judi Bowker, conta o mito grego de Perseu e Andrômeda que, segundo muitos filósofos e historiadores, é o precursor dos nossos contos de fadas.

Poster do Filme Fúria de Titãs 1981

Poster do Filme Fúria de Titãs 1981

Sinopse

A História começa quando Acrísio, o rei de Argos, sentencia à morte sua própria filha Dânae que, mesmo sendo solteira, dá a luz a um menino (Perseu), encaixotando ambos e jogando-os ao mar, imaginando que desta forma, sua honra fosse restaurada. Porém, o que o rei Acrísio não sabia era que sua filha Dânae havia sido engravidada pelo próprio Zeus, deus dos deuses olímpicos. Ao saber que seu filho morreria nos braços da mãe e à deriva, Zeus resolve castigar não apenas Acrísio mas toda Argo e ordena, então, que seu irmão Poseidon, deus dos mares,  liberte o último titã, Kraken.

Ficha Técnica

Título Original: Clash of the Titans
Título no Brasil: Fúria de Titãs
País: Reino Unido
Gênero: Aventura
Ano: 1981
Direção: Desmond Davis
Roteiro: Beverley Cross
Elenco: Anna Manahan, Burgess Meredith, Claire Bloom, Flora Robson, Freda Jackson, Harry Hamlin, Jack Gwillim, Judi Bowker, Laurence Olivier, Maggie Smith, Pat Roach, Sian Phillips, Stygian Witch, Susan Fleetwood, Tim Pigott-Smith, Ursula Andress
Produção: Charles H. Schneer, Ray Harryhausen

Trailer Original (1981)

 

O Filme de 1981 foca sua narrativa em Perseu, filho da princesa Dânae, e Andrômeda, uma linda princesa etíope filha do rei Cepheus e da rainha Cassiopéia.

Diferentemente do que é apresentado no filme, o mito inicia quando o rei de Argos, Acrísio, vai ao oráculo de Ámon para saber se algum dia teria um filho homem, já que sua esposa, a  rainha Eurídice, havia dado a luz a apenas uma menina, Dânae. O oráculo que tinha fama de nunca errar nenhuma previsão, lhe revela duas notícias terríveis; nunca teria um varão e, pior de todas, seria, num futuro, assassinado pelo próprio neto quando este nascesse e se tornasse homem.

Para não despertar a cólera das Erínias¹, que puniam aqueles que derramassem o sangue de seu próprio sangue, resolve não matar a filha, mas trancafiá-la numa alta e inalcançável torre de bronze para que nunca conhece homem  algum ou gerasse filhos destes.

“Insone pela angústia que o dominava, certa madrugada, Acrísio se levanta para tentar espairecer e qual não foi sua surpresa ao flagrar uma ofuscante e luminosa chuva de ouro caindo dos céus diretamente para dentro da torre. Imediatamente, o rei convocou sua guarda e, com violência derrubou a porta que havia selado com tanto empenho.

Espantado, deparou-se com a filha acalentando seu neto nos braços. Indagada sobre quem seria o pai, relutante, Dânae confessou que fora fecundada por Zeus. “Mas como?” Insistia o incrédulo rei.

Foi então que Dânae lhe revelou que o soberano do Olimpo se metamorfoseara (metáfora bela para o Espírito fecundado a matéria) em chuva de ouro.” (FÉLIX, Luciene. 2010)

Acrísio, então, encerra sua filha Dânae e seu neto em uma arca de madeira (uma espécie de caixão) e lança-os ao mar.

Danae de Jan Gossaert Mabuse - 1527 - Pinacoteca de Munique

Danae de Jan Gossaert Mabuse – 1527 – Pinacoteca de Munique

E é exatamente neste ponto que inicia o filme de 1981, porém, com uma história um pouco diferente pois, segundo a visão do diretor Desmond Davis, o rei de Argos se preocupara não com seu destino de morte nas mãos do neto, mas com a desonra de ter uma filha mãe solteira.(?) Porém, segundo o mito grego, Zeus, ao saber de tal ofensa à seu filho e amante, ordena que Poseidon, deus dos mares leve o “caixão da morte” em segurança até as praias da ilha de Séfiros onde, acolhidos pelo pescador Díctis, irmão do rei Polidectes, Perseu cresce como um jovem saudável, destemido.

Porém o tirano rei de Séfiros, Polidectes, apaixona-se por Dânae e, como não era correspondido, pois a bela filha de Acrísio apenas se preocupava com os seus deveres de mãe, resolveu tirar Perseu de seu caminho. Fingindo um falso casamento com Hipodâmia, convidou Dânea e seu filho para a suposta festa de bodas.²

Perseu, embora destemido, era também ousado e orgulhoso, não tendo levado presente algum, disse ao tirano que traria qualquer presente que ele quisesse. “A cabeça da rainha das Górgonas, Medusa, seria mais agradável que qualquer cavalo de ouro” disse Polidectes. E assim, sem pensar duas vezes, o jovem argo saiu em busca da cabeça do monstro.

Mas Perseu não foi de mãos vazias. Filho e protegido de Zeus, teve ajuda de vários outros deuses. Recebeu de Hermes, a espada de ouro e as sandálias aladas, de Hades o elmos da invisibilidade e de Athenas um escudo de Bronze reluzente além da bolsa de prata, onde deveria colocar a cabeça da Górgona.

Cabeça de Medusa - Peter Paul Rubens - Pintura a óleo

Cabeça de Medusa – Peter Paul Rubens – Pintura a óleo

Medusa era uma das três Górgonas (suas irmãs eram Esteno e Euríale). Antes de se tornar “a mulher com cabelos de serpente”, era uma belíssima mulher, tão linda que Poseidon, mesmo amando Athena, a teve como amante e desposou-a num templo dedicado a mesma deusa, sob a proteção e acobertamento de Esteno e Euríale. Furiosa, Athenas transformou os cabelos das três irmãs em serpentes venenosas que picavam seus rostos, reformando-os, além disso ainda fez com que nenhum homem pudesse sequer olhar diretamente a elas sob pena de transformarem-se em pedras. Mas o castigo maior estava destinado à Medusa; Sabendo que a rainha das Górgonas estava grávida de Poseidon, além dos castigos anteriores, Athenas impediu-a de dar a luz enquanto vivesse.

Perseu viajou até a Criméia para enfrentar e matar Medusa e nessa empreitada teve a ajuda da deusa Athena. Ao invés de olhar diretamente para a Górgona, ele usa seu escudo de bronze como espelho para refletir a imagem do mostro e atacá-lo. Com um golpe certeiro de sua espada de ouro, Perseu decapita Medusa. Morta ela dá a luz  aos gêmeos Crisaor e Pégasus.

Ao ver o lindo cavalo alado (Pégasus) nascido do monstro que ali jazia, Perseu não demorou a domá-lo e, voando, começa seu retorno a Séfiro para entregar o presente à Polidectes, mas antes de chegar ao seu destino, ao passar pelos mares etíopes, ouve gritos desesperados de socorro vindos de um rochedo. Amarrada pelos punhos estava a bela Andrômeda pronta para ser devorada pelo Kraken³, último dos Titãs, em honra à Poseidon.

Andrômeda - Gustave Doré

Andrômeda – Gustave Doré

Andrômeda era a princesa filha do rei etíope Celeu e da rainha Cassiopéia. Tinha uma beleza estonteante e por isso era cobiçada pelos príncipes de vários reinos. A beleza da moça era tanta que sua mãe, imprudentemente, declara que a princesa é mais linda que a deusa Hera ou as Nereidas 4.

Sua petulância em igualar ou, quiçá, superiorizar uma mortal à ninfas ou deusas fora uma afronta ao Olimpo, em especial a Hera, Hades e Poseidon que lançaram um mar de fúria no reino da Etiópia. Desesperado, o rei Celeu pede orientação ao oráculo que afirma que apenas o sacrifício de sua bela filha Andrômeda saciará a fúria dos deuses. E assim foi feito. Acorrentada em um penhasco fora, mas seus gritos de socorro encontraram o herói Perseu em seu cavalo alado que, avança contra o Kraken e após uma luta árdua, retira de sua bolsa de prata a cabeça da Medusa que, mesmo morta ainda é capaz de petrificar quem a olha diretamente, transformando o mostro em um rochedo.

Após o resgate da princesa e sob as bençãos de Celeu e Cassiopéia, Perseu casa-se com Andrômeda e volta para o reino de Séfiros. Chegando lá tem conhecimento que toda sua aventura fora um plano de Polidectes para retirá-lo de seu caminho e desposar sua mãe Dânae. Enfurecido, paga ao tirano com a mesma moeda: convida-o para receber seu presente e quando o rei de Séfiro olha fixamente o rosto morto da Medusa, transforma-se imediatamente em pedra.

Anos depois, Perseu decide voltar a Argos para conhecer seu avô Acrísio e, no caminho, decide participar de um torneio patrocinado pelo rei de Larissa. Escolheu arremesso de disco. Em seu primeiro arremesso algo dá errado. Seu disco vai direto à arquibancada e acerta um homem velho nobre que morre instantaneamente. Sem saber, Perseu acabara de matar seu avô que estava assistindo a competição, como previra o oráculo de Ámon anos atrás.

Perseu e Andrômeda foram reis em Micenas (e também fundadores da pólis) e tiveram vários filhos, entre eles, Perses (que segundo as lendas daria origem ao povo Persa), Alceu, Estênelo, Heleu, Mestor, Gorgófona e Electrion. Este último teve uma filha chamada Alcmena que casou-se com seu primo Anfitrião (filho de Alceu) e viria dar a luz  a um outro herói famoso, Hércules (Héracles).

Mesmo que o Filme de Davis tenha diferenças com o mito grego, ainda sim carrega uma aura de classicismo e, sem dúvida nenhuma, é muito melhor que a versão insossa de 2010.

NOTAS

¹As Erínias (ou Fúrias em Romano) eram a personificação da vingança. Eram muito semelhantes a Nêmesis, deusa da vingança, porém enquanto Nêmesis castigava apenas deuses, as Erínias puniam os mortais.

² Em outra versão do mito, Polidectes, com receio que o jovem Perseu usurpasse seu trono criou um torneio onde bravos guerreiros deveriam mostrar toda sua bravura. O rei de Séfiro, para livrar-se de Perseu de uma vez por todas, deu a missão de buscar a cabeça da Medusa ao jovem filho de Dânae, pois julgava impossível a qualquer homem.

³ O nome Kraken tradicionalmente está ligado às lendas da mitologia nórdica. Era um monstro marítimo comparado ao leviatã, ou um polvo gigantesco.

4 Nereidas eram as cinquenta (ou cem) ninfas do mar de Poseidon. Eram gentis e estavam sempre prontas a ajudar marinheiros em perigo. Eram tão belas que frequentemente ganhavam o coração dos homens que se lançavam ao mar para nunca mais voltar.

FONTES:

FÉLIX, Luciene. Fúria de titãs: O mito de Perseu e Andrômeda –  Artigos de Filosofia. ESDC, Escola Superior de Direito Constitucional, 2010. disponível em: http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2010_05_Furia_Titas.htm (acesso em 14/07/2014).

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-27949/

 

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