Besouro (2009)

“Seu Chefe de polícia
O barulho está formado
Tem um cara lá na praça
Batendo no seus soldados.
Capitão saiu correndo,
Tenente está desmaiado!”

Era a década de 1920. Os negros, embora já libertos pela chamada lei áurea de 1888, viviam como escravos. Todo tipo de abuso, inclusive o físico e o sexual, eram tolerados pela polícia e pela sociedade abastada e branca. Toda manifestação cultural afrodescendente, como o Candomblé ou a Capoeira, eram proibidas e quem ousasse praticá-las sofria as severas penas das leis… Mas alguns ousavam…

Mestre Alípio era um negro já de idade, que nutria uma admiração por Manuel Henrique, filho de João Grosso e Maria José. Mestre em capoeira, Alípio ensinou os segredos da ginga e da mandinga para Manuel pelas bandas da Rua do Trapiche de Baixo, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Manuel recebera o apelido de Besouro e se tornaria uma lenda e o maior nome da capoeiras de todas as épocas.

O Filme Besouro de 2009, com direção de João Daniel Tikhomiroff traz, para as telas do cinema, a história não apenas do capoeira mais glorificado do mundo, mas da resistência do negro brasileiro e sua luta, quase eterna, contra o preconceito e em favor da valorização de suas tradições.

Ficha Técnica

Título Original: Besouro
Título no Brasil: Besouro
País: Brasil
Gênero: Ação/Drama
Ano: 2009
Direção: João Daniel Tikhomiroff
Roteiro: Patrícia Andrade
Produção: Vicente Amorim
Elenco: Ailton Carmo, Jessica Barbosa, Irandhir Santos, Flavio Rocha, Servílio de Holanda, Sergio Laurentino, Nilton Junior, Leno Sacramento, Chris Vianna, Macalé, Adriana Alves, Geisa Costa, Anderson Santos de Jesus.

Trailer

“Seu cabra, conte direito
Não me faça confusão!
Como pode um só homem
Batendo num batalhão?”

O Filme, que usa e abusa das cenas de ação, conta com a coreografia de ninguém menos que Huan Chiu Ku, o mesmo coreógrafo de lutas de filmes como “Kill Bill” e “O Reino Proibido” dentre outros, e mesmo estando longe de ser um primor da sétima arte, cumpre muito bem o papel de mostrar como viviam os negros no período pós libertação, sofrendo como uma espécie de sub-cidadãos que não são escravos, mas tampouco são livres para viver como negros que são; além de sair, de forma brilhante, do lugar-comum ao trazer a representação humana dos Orixás e sua influência mitológica no cotidiano dos descendentes de escravos em finais do século XIX.

“Mas esse cara é diferente,
Não se pode confiar.
Dizem até que não é gente
E vem lá de Magangá.”

O que muitos ainda não sabem é que nem tudo no filme é ficção: realmente existiu o negro Besouro Mangangá, um capoeira que nasceu livre, de pais escravos e que viveu pouco. Foi em 1897 que nasceu Manuel Henrique Pereira e com apenas 27 anos, no arraial de Maracangalha, uns dizem que pela polícia, outros dizem que por traição, morreu Besouro Mangangá em 1924.besouro

Várias lendas surgiram em torno deste homem controverso. Segundo uma bem conhecida, seu apelido fora lhe dado porque, quando entrava em confusão (e não foram poucas as vezes nem poucas as confusões) e a quantidade de inimigos era muito além daquilo que conseguiria enfrentar, ele desaparecia ou “voava” como um besouro preto, saindo ileso. Outra lenda atribui-lhe o “corpo fechado” e por isso as balas das armas dos policiais não lhe trespassavam o corpo e nem causavam-lhe ferimentos.

Não gostava de policia e nem dos ricos donos de engenho de cana, principal produto no cenário produtivo do estado no inicio do século XIX, em especial no chamado recôncavo baiano, e por isso, e contudo, para ajudar aqueles que sofriam nas mãos destes poderosos, entrou em vários embates com os “senhores” da região. Porém sua atuação em nada se assemelhava ao banditismo, pois sempre fora caracterizado por homem trabalhador e nunca fora preso por roubo ou furto. Suas prisões foram sempre relacionadas a ações contra a polícia, como conta Antonio Pires, um praça que foi vítima do capoeirista, num  documento de 1918:

“Aos dez dias de setembro de mil novecentos e dezoito, nesta capital do estado da Bahia (…) Argeu Cláudio de Souza, com vinte e três anos de idade, solteiro, natural deste estado, praça do primeiro batalhão da brigada policial (…) foi interrogado pelo doutor delegado que lhe perguntou o seguinte:como foi feita a agressão de que foi vítima no posto policial de São Caetano? (…) Ali apareceu um indivíduo mal trajado, e encostando-se a janela central do referido posto, durante uns cinco minutos, em atitude de quem observava alguma coisa, que decorrido este tempo, o dito indivíduo interpelando o respondente, pediu-lhe um berimbau que se achava exposto juntamente com armas apreendidas…” ¹

“Pois então chame reforço
Chame uma guarda inteira!
Ele é filho do Demônio,
É Besouro Capoeira!”

Embora jovem, Besouro foi grande mestre da capoeira e deixou dois discípulos, Siri de Mangue e Mestre Cobrinha Verde, este último, que também era primo de Besouro, nos conta que certa vez, o Mangangá conseguiu emprego na Usina Colônia onde o pagamento era semanal, porém o patrão era famoso por dar calote nos negros que ali trabalhavam usando o argumento de que o salário havia “quebrado” para São Caetano. Aqueles funcionários que discordassem ou reclamassem seus direitos, sendo negros, amarrados num troco e surrados eram, ficando ali, ao relento, por um dia inteiro. Porém ao ouvir da “quebra” do salário, Besouro não apenas o forçou o homem a pagar seu salário e de todos os seus companheiros, como também surrou o patrão que tanto enganara os trabalhadores.

besouro-posterAções como esta não apenas criaram um mito semelhante ao de um Robin Hood negro, mas de um homem abençoado pelos orixás, de corpo fechado e imune às investidas da polícia ou dos senhores de engenho, na visão dos negros oprimidos, mas também de um criminoso perigoso, na visão dos brancos dominantes.

Sua morte ainda é controversa. Algumas versões afirmam que um homem chamado Dr. Zeca, proprietário de fazendas onde Besouro tinha trabalhado, designou 40 soldados para capturar o negro seja morto ou vivo, por conta de que, em uma desavença, o capoeirista havia surrado seu filho em uma luta humilhante, trouxeram-no morto. Porém a versão mais cantada nas rodas de capoeiras do mundo todo contam que, por conta de seu corpo fechado, apenas uma faca de madeira de Ticum poderia atingi-lo. Um desafeto, sabendo deste segredo, armou uma emboscada, cercando Besouro com cerca de 40 soldados e, atingindo-o, pelas costas, com a faca de madeira. Em seu atestado de óbito foi escrito somente:

Manoel Henrique, mulato escuro, solteiro, 24 anos, natural de Urupy, residente na Usina Maracangalha, profissão vaqueiro, entrou no dia 8 de julho de 1924 às 10 e meia horas do dia, falecendo às sete horas da noite, de um ferimento perfuro-inciso do abdômen. ²

Mas a verdade é que Besouro não morreu, vive até hoje em toda roda de capoeira, nos cantos e nas ladainhas do angoleiro ou nas palavras de Mestre Alípio: “A morte não existe Besouro… A morte é viver debaixo da bota dos outros” 

“Zum zum zum,
Besouro Magangá
Bateu foi na polícia
De soldado à general!”

Notas

1 – PIRES, Antonio Liberac Cardoso Simões. Bimba, Pastinha e Besouro Mangangá. Três personagens da Capoeira Baiana. pág. 27 – 2002. UTF.

2 – ____ IDEM, pág. 32

 

 

 

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